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1908

Kasato Maru: A Chegada Que Quase Não Se Repetiu

O navio virou o símbolo definitivo da imigração japonesa ao Brasil, e 325 dos seus 793 passageiros vinham de Okinawa. O que poucos contam é o que aconteceu logo depois: por 23 anos, o próprio governo japonês quase fechou essa porta de novo.

Existe um documento no acervo do Museu Histórico de Londrina Pe. Carlos Weiss chamado "325 okinawanos do Kasato Maru: relação contendo a síntese de suas trajetórias de vida". Não conseguimos acessar o conteúdo desse documento específico para este texto — mas o fato de ele existir já diz algo: alguém, em algum momento, decidiu que aquelas 325 pessoas mereciam ser lembradas uma a uma, não só como um número num navio. Esta é a história desse navio, desses números, e do que quase impediu essa história de se repetir.

Cartão postal de época mostrando o navio Kasato Maru atracado no cais do porto de Santos, com pessoas na doca, 1908.
O Kasato Maru atracado no armazém nº 14 do porto de Santos, para o desembarque dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, em 1908. Cartão postal de autor desconhecido, domínio público, via Wikimedia Commons.
Antes de 1908

Um navio com duas vidas anteriores

O Kasato Maru não nasceu como navio de imigrantes. Construído no Reino Unido, foi comprado pela Rússia em 1900 e rebatizado de "Kazan". Durante a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), serviu como navio-hospital. Só depois disso passou às mãos japonesas e foi reaproveitado para o transporte de emigrantes — a mesma embarcação que, décadas depois, terminaria afundada no Mar de Bering, no Pacífico Norte. O Museu da Imigração de São Paulo já fez essa comparação: assim como o Titanic, o Kasato Maru era um navio britânico que carregou imigrantes e hoje descansa no fundo do oceano.

18 de junho de 1908

52 dias, dois portos, nenhuma morte

Partindo de Kobe, o Kasato Maru levou 52 dias até atracar em Santos, com apenas duas escalas — Singapura e Cidade do Cabo. Nenhum passageiro morreu durante a travessia, algo incomum para uma viagem tão longa naquela época. A bordo vinham 781 imigrantes vinculados ao acordo entre Brasil e Japão, mais 12 passageiros independentes: 793 pessoas ao todo, representando 11 províncias japonesas diferentes. Okinawa, sozinha, era responsável por 325 delas — 40,6% de todo o contingente, a maior fatia de qualquer província isolada.

1913

De 40,6% para zero

Cinco anos depois da chegada do Kasato Maru, a proporção de okinawanos entre os novos imigrantes japoneses despencou de 40,6% para zero. Durante essa restrição, só entravam okinawanos que já tivessem parentes estabelecidos no Brasil. A justificativa não era sutil: pesquisas acadêmicas sobre o período documentam que okinawanos eram vistos por outros japoneses como um povo "ignorante, achinesado e atrasado" — um preconceito que remontava aos séculos em que Ryukyu manteve relações independentes com a China e o Sudeste Asiático, e que continuou sendo carregado até décadas depois da chegada ao Brasil.

1926–1936

A associação que reabriu a porta

O Ministério das Relações Exteriores do Japão colocou uma condição para reconsiderar a restrição: os okinawanos precisariam formar uma entidade própria, responsável por "orientar e educar" os imigrantes — uma exigência que nenhuma outra província japonesa enfrentou. Em agosto de 1926 nasceu a Kyūyō-kyokai, embrião da futura Associação Okinawa do Brasil, sob a presidência de Josei Onaga. Foi o esforço dessa associação que conseguiu, em 1936, a revogação definitiva da restrição — e, junto com ela, 86 mil alqueires de terra no Vale do Ribeira e no Paraná para os imigrantes okinawanos se estabelecerem.

Hoje

O que ficou de pé

Cerca de 20% dos 325 okinawanos do Kasato Maru acabaram se radicando em Campo Grande a partir de 1914, formando o núcleo do que hoje é a segunda maior comunidade okinawana do Brasil, atrás apenas de São Paulo. Depois da guerra, com a ilha destruída e a população faminta, mais de 10 mil okinawanos vieram ao Brasil só entre 1952 e 1955 — o movimento que a Kyūyō havia lutado para manter aberto. O documento do museu de Londrina, com a síntese da vida de cada uma das 325 pessoas daquele navio, existe justamente porque nem tudo sobre elas caberia numa estatística — nem mesmo o fato de que, por 23 anos, o próprio país que as viu partir tentou fechar a porta atrás delas.

Fontes

Bibliografia

  1. Museu da Imigração (São Paulo). Hospedaria de histórias: o Kasato Maru e a Hospedaria de Imigrantes do Brás. museudaimigracao.org.br
  2. Assembleia Legislativa de São Paulo. História da imigração japonesa no Brasil. al.sp.gov.br
  3. Teruya, Luísa (pesquisa citada). Okinawanos e descendentes no Brasil mantêm língua provinciana no afetivo e familiar. Jornal da USP. jornal.usp.br
  4. Os Okinawanos em São Paulo: Festividades e identidade. Anais do Centro de Interpretação e Memória (UEM). cih.uem.br
  5. Made in Japan. Okinawa, a província mais tropical do Japão. madeinjapan.com.br
  6. Associação Okinawa de Campo Grande MS. 18 de junho de 1908 – Chegada do Navio Kasato Maru ao porto de Santos. okinawacgms.com.br
  7. Museus Paraná. Ficha do acervo: 325 okinawanos do Kasato Maru (Museu Histórico de Londrina Pe. Carlos Weiss) — conteúdo não acessado diretamente para este texto. memoria.pr.gov.br