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世界のウチナーンチュ

Uchinanchu ao Redor do Mundo

Okinawa é 1% da população do Japão. Mas existem hoje 420 mil uchinanchu vivendo fora dela — mais de 10% de todos os descendentes de japoneses no planeta. Essa desproporção começa com um único homem.

Em 1896, um homem de 28 anos vivia em Tóquio sem emprego, dormindo às vezes em bancos de praça. Certo dia, numa livraria de usados, encontrou um livro chamado Shokuminron ("Teoria da Colonização") e gastou nele o pouco dinheiro que tinha. Aquela leitura mudou o destino de centenas de milhares de pessoas que ainda nem haviam nascido. O nome dele era Kyūzō Tōyama, e ele ficaria conhecido como o "pai da emigração okinawana".

1868–1898

Um professor sem escola

Tōyama nasceu em 1868, em Kin, ainda no Reino de Ryukyu, poucos anos antes da anexação japonesa. Filho de uma família que empobreceu com a virada política de 1879, tornou-se professor e, aos 25 anos, diretor da escola de sua cidade natal — cargo que abandonou ao sentir que okinawanos eram tratados de forma desigual dentro do sistema educacional japonês, o mesmo sistema que, poucos anos depois, criaria as hōgen fuda descritas no post sobre o uchinaguchi. Foi em Tóquio, sem trabalho e sem dinheiro, que ele encontrou o livro que definiria o resto da sua vida — e, sem saber, a vida de centenas de milhares de pessoas.

1899–1900

O primeiro grupo

Tōyama convenceu o governador de Okinawa, Narahara Shigeru, a apoiar seu plano: mandar trabalhadores okinawanos para as plantações de cana-de-açúcar do Havaí, de onde poderiam enviar dinheiro de volta para fortalecer a economia da ilha. Em janeiro de 1900, ele liderou o primeiro grupo — cerca de 26 a 30 homens entre 21 e 35 anos — rumo ao Havaí. Isso aconteceu oito anos antes do Kasato Maru levar os primeiros okinawanos ao Brasil, a história que já contamos no post sobre "Toki wo Koe". As condições nas plantações foram muito piores do que o prometido: trabalho pesado, supervisores violentos, e preconceito por parte dos japoneses do continente ("naichi") que já estavam lá havia anos.

Uchinaguchi neste texto

As palavras da diáspora

Termos que já apareceram acima — e que vão reaparecer em quase todo texto deste espaço.

Uchinanchu

ウチナーンチュ

"Pessoa de Okinawa" — okinawano ou descendente, onde quer que viva.

Naichi

内地

Literalmente "terra interior" — como se referem ao Japão continental, em contraste com Okinawa.

Shokuminron

殖民論

"Teoria da Colonização" — o livro que Tōyama comprou numa livraria de usados e que mudou sua vida.

1903–1920

De uma ilha para o planeta

Em 1903, Tōyama liderou um segundo grupo de 40 pessoas e passou seis meses no Havaí investigando as condições de trabalho dos imigrantes. Voltou a Okinawa e se tornou agente de emigração, enviando cada vez mais gente para fora. Em 1907, já eram 8.500 okinawanos no Havaí — cerca de 20% de toda a população japonesa na ilha. Dali, o movimento se espalhou: Estados Unidos continental, Canadá, Peru, Brasil, Argentina, Filipinas. Tōyama morreu em 1910, aos 42 anos, um ano depois de ser eleito para a primeira assembleia legislativa de Okinawa — sem nunca imaginar a escala do que havia começado.

Hoje

420 mil pessoas, uma rede

Hoje se estima em 420 mil o número de uchinanchu vivendo fora de Okinawa — segundo a Worldwide Uchina Network, a rede oficial que conecta essas comunidades. No Peru e na Argentina, chegam a 70% de todos os descendentes de japoneses. A diáspora não foi só simbólica: em 1929, durante a Grande Depressão, as remessas enviadas por uchinanchu do exterior chegaram a representar 66,4% de toda a receita da província de Okinawa. Desde 1990, o Festival Mundial Uchinanchu reúne essa rede a cada cinco anos em Okinawa, e desde 2016 o dia 30 de outubro é oficialmente o "Dia Mundial do Uchinanchu" — data proposta por dois descendentes, um argentino e um peruano. Em Kin, a cidade natal de Tōyama, uma estátua sua aponta o braço na direção do Havaí. Ele nunca saberia o tamanho do que apontava.

Fontes

Bibliografia

  1. Wikipedia. Kyuzo Toyama. en.wikipedia.org
  2. Okinawando. O Pai da Imigração Okinawana. okinawando.com
  3. Halekulani Living. Hope and Hardship — sobre Kyuzo Toyama. living.halekulani.com
  4. liuchiuan. Two Amazing Okinawans Who Helped Change the World. liuchiuan.com
  5. Worldwide Uchina Network. World Uchinanchu Day. wun.jp
  6. Maehara, Shinichi. Uchinanchu ao redor do mundo: o estado de espírito, Discover Nikkei, 2013. discovernikkei.org