Hoje
A língua que ainda une
No Brasil, onde cerca de 10% dos quase 190 mil imigrantes japoneses chegados entre 1908 e 1941 eram de Okinawa, o uchinaguchi sobrevive principalmente em ambiente afetivo e familiar — muitas vezes sem que os mais jovens percebam que aquelas palavras dos avós não são "japonês", mas uchinaguchi. Iniciativas como o Centro de Estudos da Língua Uchinaaguchi, ligado ao Colégio Exatus em São Paulo, tentam formalizar esse ensino antes que se perca de vez.
Em algumas comunidades sul-americanas, a língua resistiu de um jeito surpreendente: no Peru e na Argentina, onde 70% dos descendentes de japoneses são de origem okinawana, o uchinaguchi chegou a ser falado mais do que o japonês padrão dentro da própria comunidade. Um pesquisador okinawano relatou ter encontrado, no Brasil, uma nissei nascida aqui, que nunca havia pisado em Okinawa, falando uchinaguchi fluentemente — com o sotaque da região de origem dos pais.
Em 2000, no centenário da imigração okinawana ao Havaí, o educador Albert Miyazato resumiu em três palavras o que guiava sua geração: wasuruna — nunca esqueça; uketsugu — herde; tsutaeru — passe adiante. Um provérbio okinawano mais antigo já dizia a mesma coisa, de um jeito ainda mais direto: "Quando esquecemos as palavras da terra natal, esquecemos a pátria. Quando esquecemos a pátria, esquecemos nossos pais" — unmaridjima nu kutubá washirêe, kuni washiyun; kuni washiêe, uya washiyun. É o mesmo instinto que levou a diáspora a fixar, no Brasil, as datas móveis do calendário dos ancestrais em dias fixos do calendário ocidental — imperfeito, mas suficiente pra não deixar o ritual desaparecer. É esse mesmo fio — uma língua quase silenciada, atravessando gerações e um oceano — que dá nome a este espaço. Boa parte do vocabulário que já apareceu por aqui, como ichariba chode, yuimaru e nuchi du takara, não é decoração: é uchinaguchi vivo, palavras que sobreviveram a mais de um século de tentativas de apagamento. Uma língua, como uma vida, só desaparece de verdade quando ninguém mais a leva adiante.