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旧暦

O Calendário dos Ancestrais

Enquanto o resto do mundo segue o calendário gregoriano, Okinawa mantém, por baixo dele, um calendário lunissolar próprio — e é nele que moram as datas mais importantes da vida espiritual da ilha. O problema é que essas datas mudam todo ano.

Em várias gerações de famílias okinawanas, o calendário chinês lunissolar nunca deixou de reger a vida espiritual — mesmo depois da anexação japonesa, mesmo depois da tentativa, ainda na era Meiji, de impor o calendário gregoriano por decreto. As datas de maior peso em Okinawa não caem no mesmo dia todo ano: elas seguem a lua. E quando a diáspora chegou ao Brasil, precisou resolver um problema que a ilha nunca teve de enfrentar — como manter vivo um calendário que muda, longe do lugar onde ele sempre foi óbvio.

7º mês lunar

Shichigwachi: o mês que não se troca

No calendário okinawano, o sétimo mês lunar — shichigwachi — é o mais carregado de significado espiritual do ano inteiro. Ele começa com o Tanabata, sete dias antes do Obon: mais do que o festival das estrelas conhecido no resto do Japão, em Okinawa esse dia já é usado para visitar e limpar os túmulos da família, como convite formal para os ancestrais que vão "chegar" na semana seguinte. O Obon propriamente dito acontece entre os dias 13 e 15 desse mês lunar, e se divide em três momentos com nomes próprios: unkē, a chegada dos espíritos, quando o altar da casa é limpo e decorado com incenso, frutas e cana-de-açúcar, e a família prepara jūshī — arroz temperado com alga, vegetais e carne de porco; nakanuhī, o dia do meio, mais tranquilo; e ūkui, a despedida, por volta da meia-noite, com a melhor refeição do ano posta à mesa para os ancestrais antes de eles partirem de volta.

Início de abril

Shiimii: piquenique diante do túmulo

Shiimii (清明祭) chegou a Okinawa vindo da China, em meados do século 18 — é a versão okinawana do Qingming, um dos 24 termos solares do calendário tradicional do Leste Asiático. Todo início de abril, famílias inteiras se reúnem diante dos túmulos em formato de casco de tartaruga, característicos da paisagem okinawana, levando usanmi — uma caixa de comida em camadas com peixe, alga, kamaboko e carne de porco — para uma refeição compartilhada bem diante da sepultura. A cena costuma ser descrita como um piquenique, e em algumas partes de Okinawa o movimento de famílias voltando às cidades natais chega a engarrafar rodovias inteiras. Em Miyako e Yaeyama, esse não é o evento principal: lá, uma celebração diferente, o Jūrukunichii, no primeiro mês lunar, ocupa esse lugar de honra — um lembrete de que "cultura okinawana" nunca foi uma coisa só.

Pátio interno do Motobu Udun Tomb, com a entrada da câmara funerária ao centro e o teto em formato de casco de tartaruga.
O pátio interno do Motobu Udun Tomb, com a entrada da câmara funerária ao centro e o teto em formato de casco de tartaruga (kameko baka) — é nesse tipo de pátio que as famílias se reúnem durante o Shiimii. Foto de Motobu Naoki, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. Imagem redimensionada para uso neste site.
Uchinaguchi neste texto

As palavras do calendário

Termos que já apareceram acima.

Shichigwachi

しちぐゎち

O sétimo mês lunar — o mês do Obon okinawano, o mais carregado de significado espiritual do calendário.

Unkē / Ūkui

迎え・送り

A chegada e a despedida dos ancestrais — o primeiro e o último dos três dias do Obon okinawano.

Shiimii

シーミー

A versão okinawana do Qingming chinês — o "piquenique" ritual diante do túmulo da família, em abril.

Yaeyama, durante o Obon

Angama: quando os ancestrais usam máscara

Nas ilhas Yaeyama — sobretudo Ishigaki e Taketomi, no extremo sul de Okinawa — o Obon ganha uma camada que não existe no restante da província: o Angama. Personagens mascarados, remetendo às crenças ancestrais do antigo Reino de Ryukyu, percorrem as comunidades representando os próprios espíritos dos ancestrais em visita, misturando teatro, música e dança ao longo de vários dias. A origem exata da palavra ainda é debatida por pesquisadores, mas o efeito é claro: mesmo dentro de uma ilha pequena, a forma de lembrar dos ancestrais nunca foi uma só.

Diáspora

Um calendário que teve que ser reinventado

No Brasil, o calendário lunissolar chinês virou um problema prático que a própria ilha nunca precisou resolver: como marcar, ano após ano, uma data que muda, longe de qualquer comunidade que a marcasse de forma óbvia? A solução, adotada pelos primeiros imigrantes, foi fixar as datas do Obon em dias correspondentes do calendário ocidental — 7, 13, 14 e 15 de julho — mesmo sabendo que a lua cheia do Obon original nem sempre cai exatamente ali. É uma adaptação imperfeita, mas deliberada: o essencial não era acertar o dia exato, era não deixar o ritual desaparecer. A mesma lógica, no fundo, que já guiou a diáspora inteira — descrita em Uchinanchu ao Redor do Mundo — e o mesmo instinto por trás do provérbio que fecha o post sobre a língua uchinaguchi: esquecer a data é, em algum grau, começar a esquecer quem está sendo lembrado.

Fontes

Bibliografia

  1. Wikipedia. Ryukyuan festivals and observances. en.wikipedia.org
  2. Arquivo Prefeitural de Okinawa. 清明祭(シーミー・ウシーミー). archives.pref.okinawa.jp
  3. OIST Groups. Uchinaa Culture 01 – Shimi. groups.oist.jp
  4. Okinawa Espiritual (Beatriz Nagahama). Obon Okinawano no mês sete lunissolar: Shichiguachí. okinawaespiritual.com
  5. Okinawando. Conversas de Obon. okinawando.com
  6. Japão em Foco. Angama: a tradição ancestral de Okinawa que une os vivos e os espíritos dos antepassados. japaoemfoco.com