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はじち

Hajichi: A Tatuagem das Mulheres de Okinawa

Nas mãos de milhares de avós okinawanas havia marcas que ninguém mais faz — apagadas por decreto, quase levadas ao esquecimento, e hoje reivindicadas por uma nova geração.

Nas fotografias em preto e branco de avós okinawanas — as mesmas fotos que ilustram tantas famílias de descendentes espalhadas pelo mundo — há um detalhe que passa despercebido a quem não sabe o que procurar: pequenas marcas escuras, dispostas em padrões geométricos entre os dedos e no dorso da mão. Chamam-se hajichi, e por séculos foram parte inseparável de se tornar mulher em Okinawa. Ninguém sabe ao certo quando a tradição começou. Sabe-se, com uma precisão quase burocrática, quando foi proibida — e por quê.

Origem incerta

Uma tradição sem data de nascimento

Ninguém sabe exatamente quando as mulheres de Okinawa começaram a se tatuar. A hipótese mais aceita — defendida por Fuyu Iha, considerado o pai dos estudos okinawanos — aponta para uma origem ao sul: Taiwan, Filipinas, Micronésia, Indonésia, Polinésia. Todos esses povos tatuavam (ou ainda tatuam) o corpo, e Ryukyu manteve comércio extenso com essa região inteira. A tatuagem em si era feita por onarigami — xamãs e líderes espirituais mulheres — com agulha fina de bambu e tinta misturada a awamori, a aguardente okinawana. O profissional que a aplicava tinha nome próprio: hijitiya.

O que as marcas diziam

Um mapa no dorso da mão

A hajichi marcava a passagem de menina para mulher, e cada desenho carregava um significado específico: uma ponta de flecha podia significar "nunca mais voltar" — já que, ao se casar, a filha passava a pertencer à família do marido; um círculo representava uma meada de fios; um quadrado, uma caixa de costura, habilidade essencial para qualquer moça da época. Quanto mais alta a posição social da mulher, mais elaborado era o desenho, podendo se estender pelos braços. Havia também uma função bem mais prática: em caso de sequestro — um risco real, dado o alcance comercial marítimo do Reino de Ryukyu por toda a Ásia — a hajichi ajudava mercadores okinawanos a identificar e resgatar mulheres vendidas em portos distantes.

Uchinaguchi neste texto

As palavras por trás da tinta

Três termos que já apareceram acima — explicados aqui em destaque.

Hajichi

はじち

As tatuagens tradicionais feitas nas mãos das mulheres okinawanas, marcando a passagem para a vida adulta.

Onarigami

おなり神

"Deusas irmãs" — as xamãs e líderes espirituais mulheres de Ryukyu, responsáveis por aplicar a hajichi e por boa parte da vida religiosa do reino.

Hijitiya

ひじちゃー

O nome dado à pessoa que aplicava a tatuagem — um ofício próprio, transmitido dentro da comunidade.

1880–1899

Vinte anos até o decreto

Em 1880 (era Meiji 13), já um artigo de "melhoria de costumes" mirava práticas okinawanas. Mas foi em 1899 (Meiji 32) — exatos vinte anos após a anexação do Reino de Ryukyu — que saiu a Ordem de Proibição de Tatuagem, tornando a hajichi oficialmente ilegal. O alvo não era só estético: as autoridades associavam a prática às onarigami, e por diversas vezes prenderam essas xamãs sob acusação de tatuar outras mulheres — enfraquecendo, de propósito, uma das poucas estruturas de liderança feminina que restava na sociedade okinawana. No mesmo ano, na vila de Kijoka, em Ogimi, autoridades locais decidiram banir de uma só vez cantar alto pelas ruas, tocar sanshin em público e ter hajichi — a mesma lógica de apagamento que, anos depois, criaria as hōgen fuda contra a língua uchinaguchi já mirava, simultaneamente, a música e o corpo das mulheres.

Imigração

Marcas que atravessaram o oceano

A proibição não acabou com a prática de uma hora para outra — a fiscalização era fraca, e por décadas mulheres continuaram sendo tatuadas, principalmente em ilhas mais afastadas. Muitas das que embarcaram rumo ao Brasil no início do século 20 já carregavam a hajichi nas mãos — uma marca completamente desconhecida para as demais comunidades japonesas imigrantes. Como a tatuagem no Japão era (e ainda é) associada ao submundo, essa diferença visual pode ter contribuído, junto com a língua e os traços físicos, para o preconceito que os okinawanos enfrentaram dentro da própria colônia japonesa no Brasil. Algumas mulheres passaram a esconder as mãos; outras continuaram exibindo a hajichi com orgulho, mesmo longe de casa.

Hoje

O que ficou, o que volta

A prática ativa de tatuar foi se apagando ao longo do século 20, sufocada pela proibição, pela pressão social e pela vergonha que várias gerações internalizaram — há relatos publicados, inclusive de descendentes no Havaí, de bisavós que pediram para ser sepultadas de luvas, só para esconder as próprias mãos. Mas a memória não desapareceu por completo. Hoje, uma nova geração de mulheres okinawanas está tatuando desenhos inspirados na hajichi como forma de reconexão com a própria ancestralidade — um movimento forte o bastante para render, em 2019, uma exposição dedicada ao tema no Museu Prefeitural de Arte de Okinawa. O que antes precisava ser escondido está, aos poucos, voltando a ser mostrado.

Fontes

Bibliografia

  1. Matsumoto, Karina Satomi. Hajichi – a tatuagem da mulher okinawana. Okinawando, 2017. okinawando.com
  2. Revista Mundo OK. Tradição: Hajichi – Tatuagem. mundook.com.br
  3. Unseen Japan. Hajichi: The Banned Traditional Tattoos of Okinawa. unseen-japan.com
  4. Wikipedia. Hajichi. en.wikipedia.org
  5. liuchiuan (blog). Hajichi – Okinawan Women Tattoo (tradução do artigo de Karina Satomi Matsumoto). liuchiuan.com
  6. Ink Nurse. Hajichi: The Lost Tattoo Tradition of Okinawa & Its Cultural Revival. ink-nurse.com
  7. coisasdojapao.com. Hajichi era tradição do Reino Ryukyu em tatuar as mãos. coisasdojapao.com